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quinta-feira, 26 de abril de 2012

O DESENVOLVIMENTO DA REGRA DE FÉ

Os credos e as regras de fé foram meios usados pela igreja para definir os aspectos mais essenciais da fé cristã. Eram espécies de resumos ou sumários das doutrinas ortodoxas que identificariam um cristão. Tais credos também foram importantes no processo de reconhecimento dos escritos que iriam compor o cânon do Novo Testamento.

Há algumas profissões de fé que foram produzidas pelos Pais da Igreja e poderiam representar um consenso geral dentro da Igreja. Irineu e Tertuliano desenvolveram regras de fé que diferenciariam o verdadeiro cristianismo do gnosticismo. Seguem abaixo alguns dos credos desenvolvidos por volta do século IV d.C. Os dois últimos aqui apresentados são fruto das reuniões dos concílios ecumênicos de Niceia (325) e Constantinopla (381).

CREDO DOS APÓSTOLOS (Antigo Credo Romano)

“Creio em Deus onipotente e em Jesus Cristo seu único filho, nosso Senhor, que nasceu do Espírito Santo e da virgem Maria, que foi crucificado sob o poder de Pôncio Pilatos e sepultado, e ao terceiro dia ressurgiu da morte, que subiu ao céu e assentou à direita do Pai, de onde há de vir para julgar os vivos e os mortos. E no Espírito Santo, na santa Igreja, na remissão dos pecados, na ressurreição da carne, na vida eterna.”

CREDO NICENO

Credo de Cesareia

“Cremos em um só Deus, Pai onipotente, criador de todas as coisas visíveis e invisíveis; e em um só Senhor Jesus Cristo, Verbo de Deus, Deus de Deus, Luz de Luz, Vida de Vida, Filho unigênito, primogênito de toda a criação, por quem foram feitas todas as coisas; o qual foi feito carne para a nossa salvação e viveu entre os homens, e sofreu, e ressuscitou ao terceiro dia, e subiu ao Pai e novamente virá em glória para julgar os vivos e os mortos; cremos também em um só Espírito Santo.”

Credo de Niceia

“Cremos em um só Deus, Pai onipotente, criador de todas as coisas visíveis e invisíveis; e em um só Senhor Jesus, o Filho de Deus, gerado pelo Pai, unigênito, isto é, da substância do Pai, Deus de Deus, Luz de Luz, Deus verdadeiro de Deus verdadeiro, gerado não feito, de uma só substância com o Pai, pelo qual foram feitas todas as coisas, as que estão no céu e a s que estão na terra; o qual, por nós homens e por nossa salvação, desceu encarnou e se fez homem, e sofreu e ressuscitou ao terceiro dia, subiu ao céu, e novamente deve vir para julgar os vivos e os mortos; e no Espírito Santo. E a quantos dizem: ‘Ele era quando não era’, e ‘Antes de nascer, ele não era’, ou que ‘Foi feito do não existente’, bem como a quantos alegam ser o Filho de Deus ‘De outra substância ou essência’, ou ‘feito’, ou ‘mutável’, ou ‘alterável’ a todos estes a Igreja Católica e Apostólica anatemiza.”

Credo Niceno (niceno-constantinopolitano)

“Cremos em um só Deus, Pai todo-poderoso, criador do céu e da terra, de todas as coisas visíveis e invisíveis; e em um Senhor Jesus Cristo, o unigênito Filho de Deus, gerado pelo Pai antes de todos os séculos, Luz de Luz, verdadeiro Deus de verdadeiro Deus, gerado, não feito, de uma só substância com o Pai, pelo qual todas as coisas foram feitas; o qual, por nós homens e por nossa salvação, desceu dos céus, foi feito carne do Espírito Santo e da Virgem Maria, e tornou-se homem, e foi crucificado por nós sob o poder de Pôncio Pilatos, e padeceu, e foi sepultado, e ressuscitou ao terceiro dia conforme as Escrituras, e subiu aos céus, e assentou-se à direita do Pai, e de novo há de vir com glória para julgar os vivos e os mortos, e seu reino não terá fim; e no Espírito Santo, Senhor e vivificador, que procede do Pai, que com o Pai e o Filho conjuntamente é adorado e glorificado, que falou através dos profetas; e na Igreja una, santa, católica e apostólica; confessamos um só batismo para remissão dos pecados. Esperamos a ressurreição dos mortos e a vida do século vindouro.”

(Todos os credos citados foram retirados de BETTENSON. Documentos da Igreja Cristã. ASTE)

segunda-feira, 9 de abril de 2012

Atanásio de Alexandria (279-373)


Denominado a “coluna da Igreja” e o “martelo dos arianos”, nasceu em Alexandria, onde recebeu uma formação clássica e teológica. Há indícios de que na primeira juventude teve contatos com os monges de Tebaida. Em 319 foi ordenado diácono pelo bispo Alexandre, a quem mais tarde serviu como secretário. Foi como secretário que acompanhou o bispo ao Concílio de Nicéia (325), no qual se sobressaiu por sua discussão e dialética com os arianos. Três anos mais tarde (328), foi nomeado bispo de Alexandria.

A partir de então, a vida de Atanásio como bispo caracterizou-se pela luta contra os erros dos arianos, a defesa da verdade sancionada em Nicéia, oralmente e por escrito, e por seu indomável zelo e constância diante da adversidade. A Igreja do Oriente denominou-o “padre da ortodoxia” e a Igreja Romana considera-o entre os quatro grandes padres do Oriente. Atanásio, o Grande, foi o alvo da cólera dos arianos até o resto de seus dias. Tentaram reduzi-lo ao silêncio, procurando o favor do poder civil e corrompendo a autoridade eclesiástica. Por cinco vezes, foi expulso de sua sede episcopal e passou mais de 17 anos no exílio. Mas nada conseguiu quebrar sua resistência, pois estava convencido de que lutava pela verdade. Foi reabilitado na sede de Alexandria no dia 1º de fevereiro de 366. Viveu em paz o resto de seus dias e morreu no dia 2 de maio de 373.

É surpreendente a atividade literária de Atanásio, apesar de uma vida tão agitada. Certamente a maior parte de suas obras está estreitamente relacionada com sua luta em defesa da fé nicena. “Submete a exame crítico uma e outra vez a argumentação dialética e exegética de seus adversários, e refuta as acusações que alguns de seus inimigos sem escrúpulos lançavam contra ele”. “Em todos os seus escritos, diz Fócio, o estilo é claro, livre de redundâncias e simples, porém sério e profundo, e seus argumentos são extremamente eficazes.”

Sua extensa obra pode classificar-se em:
1) Escritos apologéticos e dogmáticos. Figuram aqui, fundamentalmente, três obras: o Tratado contra os pagãos, o Tratado sobre a encarnação do Verbo e os Discursos contra os arianos. Estes últimos, esctitos entre 338-339, constituem a obra dogmática mais importante de Atanásio. Faz um resumo da doutrina ariana tal qual foi exposta por Ario na Thalia (Ario) e defende a definição do Concílio de Nicéia de que o Filho é eterno, incriado — agénetos — e imutável, e de que existe unidade de essência entre o Pai e o Filho. Entre as obras dogmáticas espúrias atribuídas a Atanásio está o chamado Símbolo atanasiano, denominado também Symbolum Quicumque. Sua atribuição a Atanásio não é anterior ao séc. VII. Alcançou fama mundial e a partir do século IX foi utilizado no ofício ordinário dos domingos. É uma exposição clara da Trindade e das duas naturezas na única pessoa de Cristo. Provavelmente é de origem galicana e data do séc. V.

2) Escritos histórico-polêmicos, dos quais Atanásio se valeu para defender-se de seus inimigos. Nesta seção encontramos a Apologia contra os arianos, de fundamental importância para a história da controvérsia ariana; Apologia ao imperador Constâncio, obra em que colocou seu maior cuidado, escrita numa linguagem valente e digna, perfeitamente acabada e na qual brilha a arte; Apologia pela fuga, que justifica sua fuga da Igreja, e que se tornou um dos escritos mais famosos de Atanásio; A história dos arianos ataca o imperador Constâncio como um inimigo de Cristo, patrocinador da heresia e precursor do Anticristo.

3) Escritos exegéticos e ascéticos. Entre os primeiros estão os comentários sobre os Salmos, o Gênesis, o Eclesiastes e o Cântico dos Cânticos. Entre os segundos está a Vida de Santo Antão, o documento mais importante do monaquismo primitivo, escrito a partir da morte de Antônio do deserto (356). Dedicou-o aos monges, a pedido destes que queriam saber “como Antônio praticou o ascetismo, como viveu anteriormente, como foi sua morte, e se era verdade tudo quanto dele se dizia”. Escreveu a Vida de Santo Antão com o objetivo de apresentar um modelo de vida consagrada ao serviço de Deus. “É uma regra de vida monástica em forma de narração” (Gregório Nazianzeno). Com a Vida de Santo Antão criou um novo tipo de biografia, que serviu de modelo para toda a hagiografia grega e latina posterior.

4) Cartas. Somente sobreviveu uma pequena parte. Muitas delas são decretos e tratados, mais do que cartas pessoais e privadas. Elas nos chegam nos mesentérios da controvérsia ariana. Em primeiro lugar estão as chamadas Cartas festivas, cartas nas quais os bispos de Alexandria anunciavam todos os anos, às sedes sufragâneas, o início da quaresma e a festa da páscoa. São 17 as cartas festais, que começam a partir do ano 329. A mais famosa é a que corresponde ao ano 367. Nela condena-se a tentativa dos hereges de introduzir obras apócrifas como Escritura divinamente inspirada, e enumeram-se os livros do Antigo e do Novo Testamento incluídos no cânon, transmitidos e aceitos pela Igreja.

Há outras cartas importantes: três cartas sinodais, carta aos bispos africanos, duas cartas encíclicas, cartas dogmático-polêmicas, carta aos monges, cartas ascéticas etc.

Todos os esforços de Atanásio tendem a estabelecer, “desde as origens, a autêntica tradição, doutrina e fé da Igreja Católica que o Senhor deixou, os apóstolos pregaram e os padres conservaram”. Seu maior mérito consiste em ter defendido o cristianismo tradicional do perigo da helenização, oculto na heresia de Ario e de seus seguidores. Seus pontos de insistência são: a) A doutrina sobre a Trindade, “que é Deus no Pai, no Filho e no Espírito Santo, que não têm associado nenhum elemento estranho ou externo”. b) O logos e a redenção: “Ele se fez homem para que pudéssemos tornar-nos Deus, e manifestou-se através de um corpo para que tivéssemos uma idéia do Pai invisível”. c) Cristo: “Assim como é o Verbo de Deus, o Verbo se fez carne. E enquanto no princípio era o Verbo, na plenitude dos tempos a Virgem Maria concebeu-o em seu seio e o Senhor se fez homem”. “Sendo realmente Filho de Deus, fez-se também Filho do homem, e sendo Filho Unigênito de Deus, fez-se também primogênito entre muitos irmãos”. d) O Espírito Santo é Deus, que procede do Pai. Em nenhuma parte afirma explicitamente que o Espírito Santo proceda do Filho. É, no entanto, um corolário de sua doutrina.

FONTE: Breve dicionário de pensadores cristãos. Santidrián. BIBLIOGRAFIA: J. Quasten, Patrología, II, 22-83; Obras: PG 25-28.

A CONFIGURAÇÃO DO DOGMA TRINITÁRIO


A doutrina da trindade, ou dogma trinitário, isto é a doutrina sobre as três pessoas da Santíssima Trindade está presente na Bíblia e foi delineada em contornos mais precisos ao longo de anos e diversos concílios da igreja cristã. Ela trata da identidade, natureza e relacionamento entre o Pai, o Filho e o Espírito Santo. Vamos compreender seu desenvolvimento histórico através dos concílios ecumênicos de: Nicéia (325), Constantinopla (381), Éfeso (431), e Calcedônia (451).
Estes concílios são chamados “ecumênicos” porque pretendiam reunir toda a cristandade (todo o mundo habitado), ou seja, representantes de todas as igrejas cristãs. Hoje em dia a palavra adquiriu outro significado, um tanto diverso do que tinha no contexto ao qual nos referimos.
A obra do concílio de Nicéia (    ) é dupla: a condenação de Ário e a elaboração de um símbolo de fé trinitária. Este ficou conhecido como credo niceno e foi retomado e completado no concílio de Constantinopla.
No concílio de Constantinopla (    ), convocado pelo imperador Teodósio, ainda foram tratadas questões sobre o arianismo e o Espírito Santo. Foram questões trinitárias e houveram dois aspectos doutrinários mais importantes: reafirmam fortemente as decisões de Nicéia contra o arianismo; e proclamam a divindade do Espírito Santo.
No concílio de Éfeso (    ) foi decidido pela união real das duas naturezas em Cristo, a humana e a divina, e o uso do termo theotokos (genitora de Deus) para se referir a Maria, mãe de Jesus. Um outro partido achava que o termo mais apropriado seria christotokos (genitora de Cristo). O problema mais combatido foi o nestorianismo, que acentuava as diferenças entre as duas naturezas de Cristo.
A heresia monofisita, uma só natureza, proclamada por Êutiques, foi condenada no concílio de Calcedônia (    ). Este concílio reafirmou as duas naturezas de Cristo e explicou que ele é consubstancial ao Pai, isto é de mesma substância.
Substância: hoje, a palavra significa natureza ou essência; em teologia trinitária, o que os três têm em comum. Mas no século IV muitas pessoas ainda a empregavam em um sentido mais concreto: o que existe, o ser.
Hipóstase: nós a entendemos no sentido de ser individual concreto, pessoa. Há algumas confusões quanto ao uso do termo como um sinônimo de substância.
Subordinacionismo: posicionamento teológico no qual as três pessoas da Trindade estão subordinadas umas às outras. Este subordinacionismo geralmente é entendido substancialmente, mas também pode ser funcional.
Monofisismo: nesta heresia os contrastes entre as duas naturezas de Cristo são diminuídas e, nos casos mais problemáticos (eutiquianismo), até anuladas.

Referência bibliográfica:
MEUNIER, B. O nascimento dos dogmas cristãos. São Paulo: Loyola, 2005.